A exposição

Uma parte significativa das obras de arte mostradas nesta exposição reflecte claramente o contexto histórico que procurámos mostrar e onde se insere o início da aquisição de obras de arte por parte da então Empresa Nacional de Telecomunicações de Moçambique. Marcada por este contexto e pela vivência e preferências do seu ‘curador’ (consultor/assessor de artes plásticas como era designado), a colecção mostra, quer pelo que está presente quer pelo que está ausente, as tendências e tensões presentes nesses anos e a transição entre um antes (a história) e o que era presente e já futuro. A presença de Malangatana e de Alberto Chissano, cada um deles com várias obras incluindo grandes formatos, é muito forte e continuou a marcar, mesmo depois de 1995 (o ano da morte de Eugénio de Lemos) o processo de incorporação de obras na colecção. O trabalho de Chissano, de 1985, presente na exposição, foi adquirido em 2001. Da mesma geração, um outro artista, Shikhani, escultor e pintor cujo trabalho se tem permanentemente renovado, está representado com trabalhos dos primeiros anos da década de 90. Samate e Mankew, com menos trabalhos, estão também representados. No caso de Mankew, o desenho foi privilegiado. O trabalho de Noel Langa, um pintor da mesma geração, de 1999, é uma aquisição relativamente recente.

Entre as primeiras aquisições, ao lado das obras dos artistas já referidos, há trabalhos de alguns dos artistas de uma nova geração, reflectindo uma subjectividade pessoal e artística até aí ‘secundarizada’ e trabalhos de artistas que tinham atrás de si vários anos de formação e labor artístico como é exemplo a pintura de Rogélio Machado, o professor de arte vindo de Cuba ou de Sílvia, a luso-indiana com larga vivência em Moçambique. Trabalhos dos dois, um sem título e ‘Engrenagem da Vida’ de Sílvia, integram a exposição. A ideia da realização do artista através do trabalho constante, da prática oficinal, do estudo e procura e do contacto com o mundo, era uma ideia cara a Eugénio de Lemos.4 Um sinal de abertura e de internacionalização que a colecção, ainda que sem consistência, manteve ao integrar trabalhos de Fátima Fernandes, de Ulisses, de Julynia Vidigal, de Manuel Sarmento e, entre outros e mais recentemente, de Phillip Segola. O reforço do que podemos chamar ‘o núcleo histórico’ desta colecção está associado à valorização da ruptura com uma tradição artística dominante e à emergência de uma tradição local que se foi afirmando principalmente a partir da década de 60. Do mesmo modo, é valorizada a ‘expressão livre’ por oposição ao que se considera ‘imitação’ ou ‘réplica’. Nesta opção se inserem várias aquisições de trabalhos integrando a colecção e, entre eles, o de Bertina Lopes de 1960 aqui presente. Insatisfeita com o sentido estético e formal da obra, com o domínio da cor, técnica e facilidade de expressão conseguidos, a artista pintava nessa época temas de natureza social. Tinha, no dizer de José Craveirinha, ‘os sentimentos não desligados do lugar onde tinha os pés’ e integrava o grupo dos ‘poetas de que Moçambique precisava na pintura’5. O mesmo se pode dizer dos trabalhos de Jorge Nhaca, um artista já desaparecido e a quem a TDM dedicou uma exposição individual na sua Bienal de 1999. Começando por ser conhecido nos anos 60 como fazendo parte de um grupo de escultores que trabalhava e vendia à beira da estrada de Marracuene6, o interesse que se começava a manifestar pelas tradições de escultura locais abriu-lhe outras possibilidades de experimentação e contactos importantes no meio artístico da cidade. Participante no I Salão de Arte Moderna de Lourenço Marques, em 1966, ganhou o prémio de escultura. Acabou por ficar conhecido pelas suas pirogravuras, interessantes comentários sobre a sociedade que ganharam vida própria e lhe deram lugar de destaque entre todos os que a elas se dedicaram. Estêvão Mucavele, o artista autodidacta que se mostrou diferente desde a sua primeira aparição pública logo no período pós-independência, marca desde então a sua ‘própria independência’em relação à prática artística dominante.

O reconhecimento de uma nova geração de artistas com personalidade própria, de ‘uma nova criatividade’, de uma ‘maior liberdade na criação’, da existência de uma variedade de temas, linhas e correntes nos anos em que se iniciou a colecção, está fortemente presente e esta selecção pretende captar e mostrar esse momento. Ídasse,
representado aqui através de desenhos criados em diferentes momentos temporais, Isabel Martins, autora de uma obra muito pessoal, Victor Sousa, o artista inquieto e
interessado na experimentação e de quem aqui são mostrados trabalhos mais recentes, Ubisse, actualmente retirado da visibilidade que as exposições dão, representando uma proposta nova na pintura surgida na década de 80, Habulen, Micas Nungo, Gilberto Cossa, estão aqui registados. Gilberto Cossa, um dos primeiros graduados em belas artes, realizou em 1990 duas individuais que foram seguidas com atenção. ‘Eternidade’, aqui presente, foi um dos trabalhos adquiridos nessa altura. Dizia então o artista que para si a pintura era ‘essencialmente a visualização da terra, do sol e das nuvens’ e que pintava ‘com os olhos, não com as mãos nem com os meios mecânicos’.7 Naguib, que realizou a sua 1ª individual em 1986, está presente com um trabalho adquirido em 2000.

Igualmente registados estão Dias Mahlate, o escultor que nos anos 80 foi estudar na Academia de Belas Artes de Dresden, a quem se devem interessantes propostas como a que aqui se mostra, Muando e Bata, também eles autores de propostas e caminhos próprios no campo da escultura. O trabalho de Manuel Sarmento, a escultura realizada em pasta de papel e areias, marca a forma aberta e inacabada como o artista deseja exprimir-se mas também as mudanças pelas quais tem passado a escultura entre nós. Recorre a uma técnica simples com recurso a materiais facilmente acessíveis (cola, jornais, areias…) e obtém diferentes texturas. A escultura produzida pelos maconde, desde há muito reconhecida e distinguida mas também objecto de acesos debates, ocupa um lugar modesto na colecção e, também por isso, nesta exposição. Miguel Valinge, que desde os anos 80 do século passado tem um percurso individual consistente e é activo no meio artístico local, está aqui presente por mérito próprio. Também Reinata Sadimba está presente, com um trabalho de 1992, provavelmente apresentado na sua 1ª exposição individual em Maputo. Celestino Mondlane, que dispensa palavras, e Tsenane, seu aluno, simbolizam os caminhos recentes da escultura que utiliza o barro como material. Mazive e Matine mostram outros caminhos também seguidos actualmente. Sinal de um caminho igualmente actual e sinal dos sonhos e dos voos dos primeiros anos da década de 90, é a escultura de Eugénio de Lemos, de 1993, ‘O pássaro que sonhava ser máquina ou a máquina que queria voar’ de que aqui apresentamos a maqueta e que elegemos como uma peça chave e estruturadora desta exposição. Incluem-se ainda, para além de um guache mais antigo, guaches integrando o último ciclo da sua pintura, ‘uma pintura de visões mágicas, de uma poderosa sedução, de uma linguagem que desafia o tempo’.8 Fátima Fernandes, uma das figuras marcantes destes anos de viragem fazendo desde 1986 um percurso pessoal baseado numa procura e experimentação de materiais permanentes foi também a impulsionadora dos primeiros workshops internacionais de arte realizados em Moçambique a partir de 1991. A abertura e o entusiasmo que encontrou entre os artistas, muitos deles aqui mostrados, tornou estes encontros oportunidades de questionamento, de experimentação e de utilização de materiais alternativos importantes para os seus percursos posteriores. Conde, recém-regressado a Moçambique depois de ter feito formação superior em arte na Alemanha, foi um dos participantes no movimento de renovação artística que se vivia. A partir de 1991 realizou diversas exposições individuais em Maputo e na Beira. O seu trabalho faz parte de uma série de ‘máscaras humanizadas’ que têm por base uma pesquisa iniciada ainda nos seus tempos de estudante. Os trabalhos de Ulisses, o professor de arte vindo de Cuba que fez de Moçambique também a sua terra, são resultado da procura do seu lado africano e foram criados nos primeiros anos da década de 90. Ciro também está representado com um trabalho desses anos. Uma outra geração de artistas, mais recente, está apenas simbolicamente presente: Miro, Carmen Muianga, Vânia Lemos, Saranga, Penicela, Lourenço Pinto e A. Mendonça. O trabalho de desenho de L. Pinto e A. Mendonça ocupa já um lugar especial no conjunto dos que através dele se expressam.
Esta é apenas uma abordagem possível à colecção.

 

 

 


 
     
 
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